As Últimas Testemunhas

"Nós Somos as Últimas Testemunhas"

O assassinato de milhões de pessoas nos campos foi acompanhado por pilhagem em uma escala sem precedentes. Todos os pertences das vítimas foram explorados, seja para o enriquecimento pessoal dos perpetradores ou para redistribuição entre a população alemã.

Quando o campo de concentração de Majdanek, na Polônia, foi libertado pelo Exército Vermelho em 1944, milhares de pares de sapatos foram descobertos, inspirando a seguinte reflexão do poeta iídiche Moses Schulstein:

Eu vi uma montanha
Mais alta que o Mont Blanc
E mais sagrada que o Monte Sinai.
Não em um sonho. Era real.
Neste mundo essa montanha estava.
Uma montanha assim eu vi — de sapatos judeus em Majdanek.

Uma montanha assim — uma montanha assim eu vi.
E, de repente, algo estranho aconteceu.
A montanha se moveu…
E os milhares de sapatos se organizaram
Por tamanho — por pares — em filas — e se moveram.

Ouçam! Ouçam a marcha.
Ouçam o arrastar dos sapatos deixados para trás — o que restou.
De pequenos, de grandes, de cada um e de todos.
Abram caminho para as fileiras — para os pares,
Para as gerações — para os anos.
O exército de sapatos — ele se move e se move.

“Nós somos os sapatos, nós somos as últimas testemunhas.
Nós somos sapatos de netos e avôs.
De Praga, Paris e Amsterdã.
E porque somos apenas feitos de material e couro
E não de sangue e carne, cada um de nós escapou das chamas do inferno.

Nós, sapatos — que costumávamos passear no mercado
Ou acompanhar a noiva e o noivo à chuppah,
Nós, sapatos de judeus simples, de açougueiros e carpinteiros,
Das botinhas de crochê de bebês que apenas começavam a andar e ir
A ocasiões felizes, casamentos, e até ao momento
De dar à luz, de dançar, de ir a lugares emocionantes para viver…
Ou silenciosamente — a um funeral.
Sem cessar, seguimos. Marchamos.
O carrasco nunca teve a chance de nos apanhar
Em seu saco de espólios — agora nós vamos até ele.
Que todos ouçam os passos, que fluem como lágrimas,
Os passos que medem o julgamento.”

Eu vi uma montanha
Mais alta que o Mont Blanc
E mais sagrada que o Monte Sinai.

Aproximadamente 59.000 judeus, entre homens, mulheres e crianças, foram assassinados em Majdanek. Seus sapatos sobreviveram porque eram mais valorizados pelos nazistas do que as próprias vidas de seus donos.

Foto: pilhas de sapatos das vítimas em Majdanek, descobertos após a libertação, 1944; Yad Vashem

Poema: Michael Berenbaum (ed.), From Holocaust to New Life: A Documentary Volume Depicting the Proceedings and Events of the American Gathering of Jewish Holocaust Survivors, Washington, D.C., April 1983-Nissan 5743 (American Gathering of Jewish Holocaust Survivors, 1985)

Disponível em: https://www.70voices.org.uk/content/day36. Acesso em: 11 de mar. 2025

O Dia que Hinda Partiu

O Sapatinho de Hinda com Gravação no Solado

Na foto, réplica do sapatinho de bebê de Hinda Cohen, com a data de sua deportação para o campo de extermínio, gravada na sola por seu pai.

Tzipporah (nascida Barka) e Dov Cohen viviam em Kovno. Seu primeiro filho morreu ao nascer, antes da guerra. Com a invasão alemã da Lituânia, o casal tentou, sem sucesso, escapar para o território soviético e acabou voltando para casa, em Kovno. 

Em 18 de janeiro de 1942, cerca de seis meses após sua relocação para o gueto de Kovno, Tzipporah e Dov tiveram uma menina. Deram-lhe o nome de Hinda, em homenagem à mãe de Tzipporah. No final de novembro de 1943, o casal foi designado para o trabalho forçado no campo de Aleksotas, destinado a operários de aeroporto, localizado fora do gueto.

Durante o dia, homens e mulheres saíam para trabalhar, enquanto as crianças permaneciam no campo sob os cuidados de alguns adultos e idosos. As mulheres e as crianças eram separadas dos homens, e todas as noites Tzipporah e sua filhinha adormeciam nos braços uma da outra, exaustas de saudade, medo e fome. Quando Tzipporah saía para trabalhar, uma idosa do campo cuidava de Hinda, e a menina se apegou muito a ela.

Em 27 de março de 1944, caminhões chegaram ao campo. Os adultos foram levados para o trabalho por um portão diferente, para que não vissem os caminhões e não tentassem impedir a deportação. Quando os homens e as mulheres voltaram no fim do dia, descobriram que uma Aktion de crianças havia ocorrido. Nenhuma criança permanecia no campo. A pequena Hinda, doente de catapora, fora retirada da cama enrolada no cobertor com que a idosa conseguira cobri-la no último instante. Dov e Tzipporah foram até a cama da filha. Dov, recusando-se a acreditar que havia perdido sua única filha, bateu a cabeça contra a parede até sangrar. Tzipporah desmaiou. Juntos, permaneceram por horas ao lado da cama vazia de Hinda. Debaixo dela, o casal encontrou um par de sapatinhos de Hinda e as luvas que Tzipporah havia tricotado para ela. Dov pegou um dos sapatinhos, gravou na sola a data da Aktion e jurou guardá-lo para sempre.

As crianças levadas na Aktion foram colocadas em caminhões e depois deportadas de trem para Auschwitz, onde foram assassinadas ao chegar.

Após a greve dos prisioneiros de Aleksotas em protesto contra a Aktion das crianças, alguns foram autorizados a retornar ao gueto de Kovno. Dov e Tzipporah estavam entre eles e, de lá, conseguiram fugir para as florestas, onde mais tarde foram libertados pelo Exército Vermelho.

Em 1947, Tzipporah e Dov tiveram outra filha, e a família imigrou para Israel em 1960.

Dov e Tzipporah pediram à família que entregasse os objetos de sua filha Hinda ao museu Yad Vashem, e, após a morte deles, a neta do casal doou os pertences de Hinda Cohen — que foi assassinada em Auschwitz — ao Yad Vashem.

Fonte: https://www.yadvashem.org/artifacts/featured/shoe-hinda-cohen.html Acesso em: 6 de out. 2025. (Tradução livre)

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